quinta-feira, 25 de março de 2010

Ultimatum

Alvaro de Campos

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
         Fora tu, Anatole-France, Epicuro de farmacopeia-homeopática, ténia-Jaurès do Ancien-Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século dezassete, falsificada!
         Fora tu, Maurice-Barrès, feminista da Acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio!
         Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
         Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!
         Fora! Fora!
         Fora tu, George-Bernard-Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish-Melody calvinista com letra da Origem-das-Espécies!
         Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!
         Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios!
         Fora tu, Yeats da céltica-bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
         Fora! Fora!
         Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Pathmos» (solo de trombone)!
         E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
         E tu Loti, sopa salgada fria!
         E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!
         Fora! Fora! Fora!
         E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
         Tirem isso tudo da minha frente!
         Fora com isso tudo! Fora!

Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
         Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
         E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?
         E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
         E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para baixo à porta da Insuficiência da Época!
         Tirem isso tudo da minha frente!
         Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
         Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
         Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
         Senão querem sair, fiquem e lavem-se.

Falência geral de tudo por causa de todos!
         Falência geral de todos por causa de tudo!
         Falência dos povos e dos destinos — falência total!
         Desfile das nações para o meu Desprezo!
         Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
         Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
         Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio da guerra!
         (It 's a long, long way to Tipperary and a jolly sight longer way to Berlin!)
         Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo engatado!
         Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
         Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
         Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
         Tu, «imperialismo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
         Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica nasal do modernismo inestético!
         E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
         E tu, Brasil, «república irmã», blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria descobrir!
         Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
         Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
         Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
         Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
         Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
         Agora a arte é o ter ficado Rodin!
         Agora a literatura é Barrès significar!
         Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
         Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
         Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-francesa dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus!
         Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
         Sufoco de ter só isto à minha volta!
         Deixem-me respirar!
         Abram todas as janelas!
         Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Rio

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2690800.htm

O mais terrível não é a morte do homem, a coisificação do corpo/mercadoria no carrinho do supermercado... 

O mais terrível não são os tiros, as balas-perdidas, o pavor... 

O mais terrível é ver o sorriso, entre curioso e mórbido, das crianças e adolescentes absorvendo o espetáculo da estupidez humana... e se acostumando com ele, como se fosse normal e cotidiano, banal e esperado...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Isadora

não era por causa de passos leves ou delicados, nem pela beleza. nem sequer por dançar, que só a vi provocando uma única vez.
era o anúncio do destino trágico, que se transbordava na euforia em pílulas ou em voláteis odores.
nenhuma palavra, nenhuma carícia que tivesse vindo dela se deixou esquecer e esvair em dor, em lágrima, em falta, em arrependimento.
se na pele ardia, mais ainda dentro, mais ainda em volta, mais ainda.
ainda arde.

domingo, 2 de agosto de 2009

já é agosto, mon dieu!

Nusssssa... faz tempo q não venho aqui, né? mas é q ando meio maníaca e é tanta idéia me atropelando o pensamento q preciso parar para organizar as pobrezinhas, catalogar cuidadosamente cada uma delas e, então, escrever novamente! eu volto, logo!

domingo, 7 de junho de 2009

Cuma?

"Unidade da GM em Gravataí vai produzir modelo popular O projeto deve marcar a estreia do primeiro carro da montadora com tecnologia coreana, planejado para ser mais barato do que o Celta. O novo carro que a montadora General Motors (GM) vai produzir em sua fábrica de Gravataí, no Rio Grande do Sul, deve ser um modelo de baixo custo, mais barato que o Celta, hoje vendido por R$ 25 mil. O projeto, ainda em fase de desenvolvimento, deverá marcar a estreia do primeiro veículo com tecnologia coreana, que passará a ser adotada pela montadora no país." Digam-me, pessoas amadas, em que perverso mundo um carro "popular" custa mais de 53 vezes o salário mínimo nacional? Pq aqui, neste país maravilhoso, democrático e blá-blá-blá... custa isto! Quem será o povo ao qual o adjetivo demagógico se refere? Se souberem, me contem, pq me sinto uma ignorante neste preciso momento! *mode revolta* on